Verona, luz e camadas de história

Caroline Figueiredo Corrêa

3/5/20263 min read

Ontem eu escrevia aqui sobre reestofar. Sobre como objetos podem ganhar novas camadas de vida sem perder a memória do que já viveram.

Hoje volto a falar de um lugar.

Viajar sempre acaba me lembrando por que gosto tanto do que faço. Cada cidade revela algo diferente e, quase sem perceber, vou colecionando pequenas lições que depois aparecem dentro dos projetos.

Durante as viagens eu sempre ando com um pequeno caderno. Nele anoto impressões, detalhes, ideias que surgem enquanto caminho. Curiosamente, ao reler essas anotações depois, percebo que alguns temas aparecem repetidamente. O respeito ao que já existia. A convivência entre o antigo e o novo. E a importância da luz natural.

Verona me fez pensar muito sobre isso.

A cidade parece ter aprendido a viver em equilíbrio com a sua própria história. Nada parece apressado. Nada parece precisar provar nada. As construções antigas continuam ali, firmes, enquanto a vida contemporânea acontece ao redor com naturalidade.

Um dos grandes símbolos da cidade é a Arena de Verona, o anfiteatro romano que domina a Piazza Bra. Ele foi construído no século I, por volta do ano 30 depois de Cristo, e é um pouco mais antigo que o Coliseu de Roma. Ainda hoje recebe concertos e óperas ao ar livre. É impressionante perceber como uma estrutura com quase dois mil anos continua sendo usada para reunir pessoas.

Isso diz muito sobre a maneira como os italianos lidam com suas cidades.

Em vez de substituir o passado, eles o incorporam. Adaptam. Ajustam. Encontram novas funções para aquilo que já existia.

Caminhando por Verona essa sensação aparece em todos os lugares. Nas ruas de mármore polido que refletem a luz suave do fim da tarde. Em outras ruas onde a pedra parece ainda mais antiga, irregular, quase contando histórias sob os pés. Nos edifícios de diferentes épocas que convivem lado a lado com uma naturalidade que parece quase intuitiva.

Verona também carrega um imaginário romântico muito forte por causa de Romeu e Julieta. A famosa varanda da casa de Julieta atrai visitantes do mundo todo inspirados pela história de Shakespeare. Curiosamente, a casa pertenceu de fato a uma família chamada Cappello, um sobrenome que lembra muito o Capulet da peça. A varanda que vemos hoje foi acrescentada apenas no século vinte durante uma restauração do edifício.

De certa forma, a cidade acabou abraçando essa mistura entre história real e literatura.

Talvez por isso Verona tenha essa atmosfera tão particular. Romântica, mas de uma maneira serena. Artística, mas sem exageros. Um tipo de beleza que não precisa chamar atenção.

Alguns pontos de vista simplesmente tiram o fôlego. Do alto das colinas, olhando o rio Adige contornando a cidade, as torres e igrejas surgem aos poucos no horizonte. No final da tarde a luz dourada se espalha pelos telhados de terracota e tudo parece mais silencioso.

E foi justamente observando essa luz que voltei a pensar em algo que sempre me acompanha no trabalho.

Eu simplesmente não consigo gostar de iluminação fria.

Cada vez que observo como a luz natural toca os materiais ao longo do dia, fico ainda mais convencida de que ambientes acolhedores pedem luz quente. Uma luz mais suave, mais próxima daquilo que vemos ao amanhecer ou no final da tarde.

Também acredito muito nas proporções corretas de luz de acordo com o uso de cada ambiente. Nem tudo precisa estar completamente iluminado o tempo todo. Pelo contrário. Muitas vezes é a luz mais baixa que cria atmosfera.

Abajures, por exemplo, têm um poder enorme. Eles desenham pequenas ilhas de luz dentro de um espaço. Criam camadas. Criam cenários.

E é curioso perceber como cidades antigas entendiam isso naturalmente. A arquitetura, as janelas, as espessuras das paredes, tudo parece trabalhar junto com a luz em vez de competir com ela.

Talvez por isso caminhar por Verona seja tão agradável.

Existe uma suavidade na cidade. Um ritmo tranquilo. Uma beleza que não se impõe, mas que vai aparecendo aos poucos enquanto você observa.

E isso me lembra algo que tento levar cada vez mais para dentro dos projetos.

O que realmente é aconchegante quase nunca anuncia isso em voz alta.

Um espaço verdadeiramente acolhedor não grita conforto. Você simplesmente sente. Às vezes nem sabe explicar exatamente por quê.

Normalmente isso nasce da soma de muitas pequenas decisões. Da escolha cuidadosa dos materiais. Do respeito ao que já existia. Da maneira como a luz entra no ambiente e se transforma ao longo do dia.

Projetar, no fundo, também é um exercício de sensibilidade.

Escutar o lugar. A luz. A história que já estava ali antes da gente chegar.

E cidades como Verona nos lembram disso com uma delicadeza enorme. Que alguns dos espaços mais bonitos do mundo não foram criados para impressionar.

Eles foram construídos com calma.

E talvez seja exatamente por isso que continuam tão vivos.