Projetar é entender como vivemos
Reflexões sobre a evolução do morar a partir da história doméstica de Londres
Janeiro em Londres não oferece cores fáceis. O céu fica baixo, a luz é cinza e as superfícies parecem absorver mais do que refletem. Foi nesse clima que visitei o Museum of the Home, em Hoxton, no leste de Londres.
O museu ocupa antigos almshouses do século XVIII, ao longo da Kingsland Road. Construções originalmente destinadas a abrigar moradores mais velhos da comunidade, hoje restauradas para contar uma história íntima sobre como vivemos dentro de casa. A fachada é contida, quase silenciosa. Nada anuncia espetáculo. Essa sobriedade continua no interior.
O percurso pelas salas é gradual. Cada ambiente representa uma época diferente, do século XVII até tempos mais recentes. Não se trata apenas de observar móveis, mas de perceber como a vida doméstica se organizava.
As salas de jantar revelam muito. Nos períodos mais antigos, a mesa é rígida, central, quase simbólica. A disposição das cadeiras deixa clara a hierarquia familiar. Quem ocupa a cabeceira, quem serve, quem observa. A mesa não é apenas objeto. É estrutura social.
Com o tempo, algo muda. As mesas se tornam menos cerimoniais. A cor começa a aparecer. A formalidade diminui. O espaço passa a sugerir convivência e não apenas protocolo. A decoração acompanha a transformação comportamental.
Os quartos também mostram essa evolução. Em certos momentos da história, o quarto não é totalmente privado. Aos poucos, ele se torna refúgio. A ideia de intimidade se constrói. O tamanho das camas, a posição das janelas, os tecidos escolhidos falam sobre essa mudança.
Visitar o museu em um dia de céu fechado intensifica a percepção da luz. Nada ali é dramatizado. A luz entra lateral, suave, tocando madeira escurecida, papéis de parede históricos, tecidos mais densos. Ela não ilumina para impressionar. Ela revela textura.
O jardim, conhecido como Gardens Through Time, estava contido pelo inverno. Em outra estação ele deve ser exuberante. Em janeiro, ele é desenho e estrutura. Mesmo sem flores, é possível perceber como o espaço externo sempre fez parte da vida doméstica.
Hoxton faz parte do borough de Hackney, e ao sair do museu essa transição fica evidente. Hackney carrega uma energia criativa que convive com sua história industrial. Ainda há aspereza, mas há também ateliês, cafés e pequenas lojas que valorizam materialidade e identidade.
Foi natural seguir até a Colours of Arley, uma das minhas lojas favoritas em Londres e que também fica na região. Sempre que entro ali sou recebida com uma atenção genuína. Não é apenas atendimento. É conversa sobre tecido, sobre listras, sobre escala. A loja é compacta, mas intensa. Há ousadia nas combinações, mas também disciplina. Cor aplicada com estrutura.
Depois de caminhar por séculos de interiores no museu, entrar na loja parece uma continuidade. O passado mostra como vivíamos. O presente mostra como podemos reinterpretar isso.
Naquele dia de luz difusa, com o céu pesado e as fachadas absorvendo o cinza, ficou claro para mim que o interior sempre foi reflexo de comportamento. A mesa muda quando a maneira de se reunir muda. A cadeira se desloca quando a hierarquia se transforma.
A casa responde ao tempo.
E compreender isso muda completamente a forma como projetamos hoje.

























