O que o litoral brasileiro me lembra sobre projetar com leveza

Caroline Figueiredo Corrêa

3/9/20263 min read

Alguns lugares nos fazem desacelerar sem pedir licença. Florianópolis é um desses.

A ilha tem uma maneira muito própria de existir. Há praias de águas calmas, outras de mar bem agitado que atraem surfistas do mundo inteiro, morros cobertos de verde e uma luz que muda ao longo do dia de uma forma muito particular. O azul do mar, o verde da vegetação e o branco gasto pelo tempo das construções formam uma paleta que parece naturalmente equilibrada.

Caminhando pela cidade, algo que sempre me chama atenção é a presença de construções antigas que ainda permanecem ali, discretas, convivendo com edifícios mais recentes. Pequenas casas coloniais, fachadas preservadas, portas de madeira e janelas simples que atravessaram décadas.

Esse tipo de convivência entre tempos diferentes sempre me interessa muito quando penso em interiores.

Um espaço não precisa nascer inteiro em um único momento. Muitas vezes ele se constrói em camadas, como acontece nas cidades. A beleza está justamente em permitir que as histórias continuem presentes.

Florianópolis também tem uma relação muito forte com o artesanal. Em muitos pontos da cidade aparecem pequenas feiras, peças feitas à mão, cerâmicas, fibras naturais e objetos que carregam a simplicidade do gesto manual. Não existe pressa nesse tipo de criação.

E talvez seja justamente essa ausência de pressa que torna tudo mais interessante.

Durante essa viagem também vivi um pequeno desvio de rota que acabou se tornando um dos momentos mais marcantes do percurso.

Na volta para Araraquara fizemos uma parada em Curitiba. Eu e Paulinho estávamos acompanhando um casal de amigos suecos que havia viajado para conhecer Florianópolis e estudar português. Foi uma viagem breve e cheia de risadas, afinal brasileiros e suecos se comunicando em inglês enquanto descobrem e apresentam lugares uns aos outros só pode terminar em boas memórias. Em um desses impulsos que surgem naturalmente durante uma viagem, decidimos pegar o trem que liga Curitiba a Morretes.

A ferrovia, inaugurada em 1885, atravessa a Serra do Mar e até hoje é considerada uma das rotas ferroviárias mais bonitas do Brasil.

O trajeto serpenteia por montanhas cobertas pela Mata Atlântica, passa por pontes metálicas históricas e atravessa túneis que parecem saídos de outro tempo.

O passeio tem diferentes categorias de cabine, mas na classe mais alta a experiência é curiosamente transportadora. A decoração remete aos vagões clássicos de viagem. Poltronas confortáveis, madeira escura, pequenos detalhes em metal e uma atmosfera que lembra a elegância das viagens ferroviárias de outra época.

É quase impossível não imaginar como era viajar assim quando o trem ainda era o principal meio de atravessar o país.

Esse tipo de ambientação sempre me lembra o quanto o design tem o poder de construir narrativas. Um espaço bem pensado consegue transportar quem está ali para um outro tempo ou uma outra atmosfera.

A chegada em Morretes traz uma sensação completamente diferente.

A cidade é pequena, tranquila e atravessada pelo rio Nhundiaquara, que acompanha o centro histórico. Muitas das construções coloniais foram preservadas, com cores suaves e arquitetura simples que ajuda a manter o caráter da cidade.

Morretes também é conhecida pelo artesanato e pelas feiras que ocupam algumas ruas próximas ao centro. Bancas com objetos feitos à mão, bordados, cerâmicas, peças de madeira e pequenas obras de artistas locais aparecem com frequência. É um tipo de produção que ainda carrega muito da identidade cultural da região.

Durante a visita encontrei também uma pequena exposição de arte local. Espaços assim sempre me lembram que mesmo cidades pequenas podem ser grandes centros de criação.

Depois da visita, o retorno é feito de transfer pelas estradas da serra, o que faz com que a experiência do trem permaneça quase como um pequeno capítulo isolado da viagem.

Mas talvez um dos momentos mais bonitos desse dia tenha sido observar algo muito simples.

Ver alguém vivendo aquilo pela primeira vez.

Nossos amigos suecos nunca tinham passado por uma paisagem como aquela. A Mata Atlântica fechada, a umidade da serra, a forma como o trem atravessa a montanha lentamente. Havia um encantamento genuíno no olhar deles.

E é curioso como observar o olhar de alguém descobrindo algo novo nos faz redescobrir também aquilo que já conhecemos.

Esse tipo de momento sempre volta comigo para o trabalho.

Projetar espaços, de certa forma, também é criar primeiras experiências. É desenhar ambientes que possam encantar, acolher, facilitar a vida de quem os vive.

Existe algo muito bonito em perceber que um espaço bem pensado pode provocar exatamente essa sensação silenciosa de descoberta.

Florianópolis e Morretes talvez não compartilhem a mesma escala urbana de muitas cidades europeias que costumo visitar, mas trazem algo que considero igualmente importante.

Uma certa naturalidade.

A forma como o mar entra na paisagem, a presença do verde, os materiais simples, o artesanato, as construções preservadas e essa mistura delicada entre passado e presente.

Quando penso em interiores, muitas vezes volto a essa sensação.

Projetar com leveza.

Permitir que os espaços respirem.

Criar ambientes que não precisam provar nada, mas que silenciosamente convidam as pessoas a permanecer um pouco mais.