O poder silencioso de aparecer
Algumas das pessoas mais importantes que conhecemos entram em nossas vidas quando menos esperamos.
Conheci Stevie em um dos momentos mais difíceis e vulneráveis da minha vida. O que poderia ter sido apenas um encontro passageiro acabou se transformando em uma amizade que carrego com enorme carinho.
Stevie é o artista por trás do White Rabbit de Barnes, em Londres. Há mais de vinte anos ele sustenta uma tradição curiosa e profundamente inglesa. No primeiro dia de cada mês ele veste o traje do coelho branco e aparece para celebrar algo simples, quase delicado.
O começo de um novo mês.
Existe um antigo costume britânico que diz que, ao acordar no primeiro dia do mês, é preciso dizer rabbit, rabbit, rabbit antes de qualquer outra palavra. Acredita-se que isso traz sorte e prosperidade para as semanas que começam. A tradição existe há gerações e ainda sobrevive silenciosamente em muitas casas inglesas.
O que Stevie fez foi transformar esse pequeno ritual doméstico em algo maior.
Stevie é um artista performático. Ao longo dos anos ele construiu uma prática artística muito própria, onde arte, presença e vida cotidiana se misturam com naturalidade. O White Rabbit é talvez a expressão mais visível desse trabalho.
No primeiro dia de cada mês, sem exceção, ele se transforma no White Rabbit e ocupa seu lugar habitual na Barnes Bridge. Ali, entre o movimento tranquilo do rio e o ritmo sereno do bairro, ele cumprimenta quem passa com uma alegria quase contagiante.
Crianças param por alguns segundos, tentando entender se aquilo é fantasia ou realidade. Adultos diminuem o passo e sorriem. Ciclistas passam curiosos. E mesmo quem nunca ouviu falar da tradição percebe que há algo especial acontecendo naquele pequeno gesto que se repete mês após mês.
Em ocasiões especiais o White Rabbit aparece também em outros lugares ou eventos. Mas é na Barnes Bridge que esse ritual realmente vive. Ao longo dos anos ele se tornou parte da paisagem emocional do bairro, um pequeno sinal de que um novo ciclo começou.
O que mais me impressiona é a consistência.
Durante mais de duas décadas Stevie nunca deixou de aparecer no primeiro dia do mês. Mesmo quando viaja para outros países ele encontra uma forma de manter a tradição viva. A capa do livro que conta um pouco da sua trajetória mostra exatamente isso. Um artista que transformou um gesto simples em um símbolo de continuidade.
Mas o trabalho de Stevie vai além da figura do coelho branco.
Sua pesquisa artística também explora o conceito de Neurodrifting, uma maneira de pensar sobre movimento, atenção e criatividade que dialoga com experiências de pessoas neurodivergentes, especialmente aquelas que vivem com TDAH. Em vez de tratar a distração como um problema, a ideia é compreender como diferentes formas de atenção podem gerar novas maneiras de perceber o mundo.
Talvez seja por isso que sua arte sempre me parece tão viva.
Hoje, aos sessenta anos, Stevie está prestes a concluir um PhD pela Kingston University, aprofundando exatamente essas interseções entre performance, neurodiversidade e experiência cotidiana.
Ao longo da história, o coelho aparece com frequência na iconografia europeia. Na pintura Madonna with the Rabbit, de Tiziano, o animal simboliza pureza, fertilidade e renovação. Em muitas culturas ele representa ciclos, recomeços e a promessa de algo novo.
Curiosamente, esses significados dialogam de maneira muito bonita com o ritual que Stevie mantém todos os meses.
Um novo mês. Um novo começo.
Mas o que mais me encanta não é apenas a tradição. É a pessoa por trás dela.
Stevie é genuíno de uma forma rara. Uma alma boa. Um artista no sentido mais verdadeiro da palavra. Alguém que entende que a arte não precisa necessariamente viver dentro de galerias ou museus. Às vezes ela acontece na vida cotidiana.
No seu site é possível ver outras dimensões do seu trabalho. Desenhos, colagens, experimentações visuais. Um olhar curioso sobre o mundo que continua se expandindo.
Talvez seja isso que o mantém tão jovem.
Porque fazer o que se ama diariamente tem esse efeito. Mantém a curiosidade viva.
Essa mesma lógica aparece também na arquitetura. Edifícios que atravessam gerações raramente sobrevivem apenas pela estrutura física. Eles permanecem porque carregam significado para quem os vive.
Tradições funcionam da mesma forma.
Quando algo se repete ao longo do tempo com intenção verdadeira, aquilo passa a fazer parte da memória coletiva de um lugar.
Em Barnes, o White Rabbit já é exatamente isso.
Um gesto artístico simples que se tornou parte da identidade do bairro.
Talvez essa seja a grande lição que carrego dessa amizade.
Criar algo que permaneça não exige necessariamente grandiosidade. Exige consistência. Exige presença.
Exige aparecer, mesmo quando ninguém está olhando.
No fundo, arte, arquitetura e design compartilham exatamente essa intenção. Criar algo que acompanhe a vida das pessoas. Algo que continue fazendo sentido com o passar dos anos.
Algo que lembre, de tempos em tempos, que recomeçar também pode ser bonito.
Website do Stevie: http://www.spikemclarrity.com/






